Fala do Dário Frederico Pasche (continuação)
Para a PNH estas direções são clínico-políticas: acolher, democratizar a gestão, ampliar a clínica, valorizar o trabalho e o trabalhador, garantir direitos dos usuários/cidadãos nos processos de atenção à saúde.
Incluir o outro, todavia, não de forma passiva, ou por uma aderência acrítica aquilo que o outro traz de si – pois é inerente ao humano buscar legitimar o particular como universal - mas para ação de climanem, de produção de desvio, para produzir deslocamentos, sem os quais a produção do comum não se faz. Humanizar é, pois, produzir deslocamentos, colocar-se em lateralidade, forjando em si e em outros, novas atitudes, novas éticas.
O movimento de inclusão para deslocar, para produção do comum, é o motor da produção da vida social. É movimento sem o qual a vida plasma sobre o sombrio contexto do dado, do definido, do constituído, onde tudo já está decidido. E onde é assim, no contexto da injustiça social – que ainda campeia em nosso país – tomar o dado como certo é deixar aflorar o mesquinho, a barbárie, a exploração. No campo do cuidado, na área da saúde isto permite experimentações inomináveis, pois atentam contra a vida, a dignidade humana. Talvez práticas desumanizadoras na saúde sejam analisadores do homem em estágio primitivo, são janelas de tempo que nos permitem verificar o que seria a humanidade sem as construções éticas que criamos ao longo de gerações e gerações.
Humanização é, assim, propositura para a criação, poiesis. Criação de novas práticas de saúde, de novos modos de gestão, tarefas inseparáveis da produção de novos sujeitos.
Humanizar é, pois, tarefa de tornar homens e mulheres mais capazes de lidar com a heterogeneidade e, por sua demasiada condição humana – de querer e desejar -, reinventar a vida, criando as condições para a emergência do bem comum. Esta é nossa aposta ética; está é nossa aposta política para o SUS.
O Seminário quer ser coerente a estes pressupostos da PNH: acolher a diversidade, construir espaços para ampliação da superfície de contato entre as pessoas – como esta imensa roda, a Ágora Humanizasus – vibrante, encantadora e ao mesmo tempo assustadora.
Planejamos este Seminário sob esta perspectiva: permitir ao máximo que mais pessoas possam se manifestar. Foi também um seminário concebido e construído a muitas mãos. Envolvemos dezenas de pessoas para pensar sua concepção geral e cada um de seus espaços e atividades em particular. Poderíamos dizer que ele foi construído por umas 5 ou 6 pessoas – e que trabalharam muito nestes 6 meses – mas este pequeno grupo foi orientado e apoiado incontestemente por um grande coletivo, o coletivo PNH e suas mais diversas ramificações, naquilo que temos chamado de Coletivos Ampliados da Política de Humanização. A todos e todas eu queria agradecer em nome da Coordenação da PNH. Sem vocês este seminário corria o risco de ser mais.
Queremos – esta é nossa aposta e justificativa para o investimento de energia, afetos e dinheiro do SUS – que este evento marque certo modo de conceber e de pensar encontros em espaços mais heterogêneos e amplos; que mobilize as pessoas para a experimentação crítica de dispositivos da humanização em seus espaços de intervenção; e que, por fim, produza alguma afecção no sentido da necessidade de avançarmos de forma radical na reforma sanitária deste país, que não é tarefa apenas de seus dirigentes, mas obra coletiva, sem o qual suas possibilidades de sustentação e de institucionalidade se reduzem a quase nada.
Em 2004 quando nos reunimos pela primeira vez éramos também uns mil e duzentos participantes, que compartilharam 15 oficinas e puderam conhecer 350 experiências registradas em pôsteres. À época 6.4 mil pessoas acessaram as transmissões do DATASUS. Estávamos ali mais na perspectiva de divulgar a idéia e ideário da PNH.
Hoje esta perspectiva permanece, mas está acrescida substantivamente da dimensão da troca. Nestes cinco anos inventamos muito. Tivemos acertos, avanços, mas também dificuldades e recuos. Queremos compartilhar estas experiências, para que trocando possamos aprimorar o SUS. Os números registram isto: somos uns 1.2 mil, mas há uma lista de mais de 2,5 inscritos em lista de espera – a todos estes, alguns que nos ouvem agora, queria enviar uma saudação especial: vocês estão aqui conosco, não tenham dúvida! -. Além disto, tomamos uma série de medidas para que fosse possível a participação de representantes de todos os estados da federação e chegamos a número de 216 municípios participantes do 2º Seminário Nacional de Humanização.
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