Mesa de abertura - PNH/MS

Fala do Dário Frederico Pasche

Bom dia a todas e todos. É uma honra e um prazer estar com vocês no 2º Seminário Nacional de Humanização. Sejam todos bem-vindos.
Quero cumprimentar as autoridades presentes nesta solenidade de abertura.

Quando tomamos a tarefa de humanizar no SUS as práticas de gestão e de cuidado, não nos mobilizamos para construir estratégias de combate daquilo que poderia ser tomado por seu oposto – práticas desumanizadoras e desumanizantes. Um movimento nesta direção poderia viabilizar uma política moral e moralizante e de busca de culpados. Nesta direção muito provavelmente teríamos forjado a humanização no SUS sem a produção de novos sujeitos, senão sujeitos que passariam a ter certos comportamentos e atitudes pelo constrangimento da regra, da imposição unicamente do que lhe é externo.

Quando no SUS tomamos a perspectiva da humanização foi para afirmá-la como um valor do cuidado e da gestão em saúde. Valor substantivo, inerente e imanente da ação de homens e mulheres no campo da saúde. Valor que rege, que ilumina, que dá orientação para as ações, as atitudes, para afirmação de certa ética: a ética de colocar no primeiro plano as pessoas, os sujeitos.

Assim, toda dificuldade e delicadeza que a tarefa nos trazia e nos traz é menos de afirmar como deve ser – inclusive pelo risco de alguém por sua autoridade tomar a condição de porta-voz deste “fazer correto” – que modificamos e substituímos pelo como fazer com que a humanização compreendida como valor ético-político passasse a ser experimentada de forma extensiva nas práticas de gestão e de cuidado na rede SUS. A partir de então estava exposto – como um nervo que lateja – a tarefa da Política Nacional de Humanização: construir modos de fazer para que o universo da rede SUS e seu enorme contingente de usuários, trabalhadores e trabalhadores investidos da “figura de gestor”, passasse a experimentar novas possibilidades de manejo das tensões e alegrias do trabalho em saúde.

O SUS reclamava à época - estamos no ano de 2000, na 11ª Conferência Nacional de Saúde – por princípios metodológicos que indicassem, então, certo modo de fazer. Fomos buscar este modo de fazer nas próprias experimentações do SUS, naquilo que passamos denominar simbolicamente de o SUS QUE DÁ CERTO. Em 2004, por ocasião do Prêmio David Capistrano, apreendemos e aprendemos que o SUS QUE DÁ CERTO é o SUS que se propõe a um modelo de experimentação baseado na inclusão. Portanto, obra coletiva. Talvez este seja um dos principais ensinamentos que o movimento susista nos tem proporcionado: quanto mais coletiva for a experimentação, melhor e mais sustentando serão seus indicadores de eficácia e de eficiência por certo.

Assim, Humanização é inclusão. Humanização como método, como modo de fazer inclusivo e includente, oriundo da tradição reformista brasileira no campo da saúde, que se nutre e se funda (não percamos jamais isto de nosso horizonte) na luta radical contra qualquer forma de autoritarismo, contra o centripetismo, a um centro que controla, contra práticas de exclusão. A humanização é uma experimentação ética que aposta na criação desde a diversidade. Incluir e suportar o outro, sem o uso de recursos da violência, da “antropoemia”, de vomitar e expulsar o outro. Este é um dos legados do SUS.

Inclusão, na perspectiva democrática, significa acolher e incluir as diferenças, a diversidade. Diversidade da manifestação do vivo, do vívido, da heterogeneidade do humano. O outro, alteridades, o que não sou eu, que de mim estranha, que em mim produz estranhamento, portanto mal-estares, movimentos ambíguos e contraditórios. Certamente para um trabalhador heterossexual a prática clínica com sujeitos com outras orientações sexuais é um desafio; certamente para um gestor incluir trabalhador na gestão, na perspectiva de não manipula-lo, é desafiante; provocar em “pacientes” atitudes na direção da construção de maior autonomia no cuidado de si é trazer para a relação clínica um sujeito que disputa o cuidado. Incluir é, pois, tomar a perturbação da inclusão como matéria prima para construir modos de gestão afinados com os interesses coletivos e práticas clínicas mais aproximadas de experimentações singulares.

Inclusão do outro para diferir, para a produção do comum, orientado por premissas éticas. Pressupostos éticos do próprio SUS e daquilo que a humanidade construiu como base da ação humana: solidariedade, compartilhamento, cooperação, justiça, não discriminação.




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