Fala do Sr. Francisco Batista Júnior
Quero cumprimentar o secretário Beltrame, que representa o ministro de Estado, o Renato da OPAS, o Dário, que coordena a Política Nacional de Humanização, o Jurandir do CONASS, Ênio do CONASEMS, quero abraçar cada uma das mulheres e cada um dos homens que estão aqui, parabenizar o Dário, parabenizar o Ministério da Saúde, particularmente parabenizar toda a militância do Sistema Único de Saúde que por esse país afora continua resistindo bravamente em defesa do SUS e dizer que para nós do Conselho Nacional de Saúde é muito importante um momento como esse.
Nós estamos viajando todo o país com a nossa caravana em defesa do SUS, já estivemos em oito estados da Federação, já estivemos em algumas regiões, dentro de alguns estados, já estivemos em algumas cidades, temos todo um calendário a ser cumprido até dezembro e nesta caravana que nós estamos realizando nós temos percebido que o tema da humanização, Dário, tem sido recorrente, para nós de uma certa forma até um tanto quanto surpreendente, acostumados que somos as constantes reivindicações das demandas mais emergenciais, mais urgentes, quando nós percebemos pelo país afora a humanização sendo tema, sendo o foco e o centro do debate, nós percebemos que as coisas estão mudando.
Agora, é óbvio que, eu estava pensando sentado ali enquanto ouvia o Dário Falar, é óbvio que se temos a convicção de que o Sistema Único de Saúde é contra-hegemônico (?), que vem sobrevivendo duramente durante esses vinte e um anos, mais contra-hegemônico ainda é o tema da humanização.
Eu, como farmacêutico, sou lotado em Natal no hospital estadual que é referência em doentes infecto-contagiosos, a direção desse hospital resolveu construir uma proposta de gestão participativa, democrática e humana, uma proposta inovadora em nosso estado, com as dificuldades que eu tenho, tenho tentado acompanhar essa proposta da nossa direção no hospital, participei do primeiro movimento mais geral e tive a oportunidade de contribuir num dos grupos que foram constituídos onde eu afirmei que nós devíamos nos preparara para um paradoxo por que chegar para os trabalhadores de um hospital, chegar para quase dois mil trabalhadores e dizer que está em curso uma proposta de democratização e de humanização da gestão, em tese é a proposta para ser aprovada com todo mundo e eu fiz a (...) dizendo, mas não nos vamos iludir; essa proposta, por incrível que pareça e por mais paradoxal que possa parecer, vai ter dificuldades.
Tivemos um segundo momento a semana passada e eu pude participar. A Teresa é psicóloga, está construindo esse processo lá em Natal conosco e pude participar do período da manhã onde eu pude ouvir o relato dos desdobramentos do primeiro momento e todos os relatos das pessoas que ficaram com a incumbência de construir debates dentro do hospital tinham uma coisa em comum, a resistência enorme das pessoas em contribuírem para que o processo pudesse avançar, pudesse acontecer; e porque isso acontece? É óbvio, pelas informações que foram colocadas pelos nossos trabalhadores, o grande elemento é a descrença em que a democracia possa acontecer de fato.
Eu acho que tem outros elementos nesse debate também, tem gente que está muito satisfeito com o atual estado de coisas, que interessa a alguns por que tem um componente de desresponsabilização muito forte, então fica uma coisa que merece um debate mais aprofundado; o que está acontecendo? Eu estive em Belém do Pará ontem participando de um evento muito interessante, ouvindo em participação muito grande de usuários, quando um usuário pegou o microfone, teve uma fala de aproximadamente dez minutos onde colocou o atendimento dos serviços de saúde da rede SUS no país no limbo, acusando os trabalhadores de serem desresponsabilizados, de atenderem sem humanização, de atenderem sem cuidado e entendendo esse fato, entendendo essa prática como sendo pelo fato de o SUS atender aos pobres e ela como sendo representante legítima dos pobres deste país era atendida de forma desqualificada então nos serviços públicos.
Eu acho que analisando essas nossas caravanas pelos estados da Federação e onde a humanização tem sido um tema muito presente não dá para desvincular o debate de humanização de debates de cunho inclusive não só cultural como ideológico. Estou convencido de que é impossível debater SUS sem debater humanização, é impossível viabilizar SUS sem viabilizar a humanização, mas se nós não tivermos a competência e a coragem de fazer enfrentamento com a cultura profundamente autoritária que norteia as relações sociais nesse país não vai haver humanização, não vai haver Sistema Único de Saúde.
Há um sentimento quase que generalizado de profunda frustração e insatisfação das pessoas com determinados atores que até poucos anos atrás faziam parte dessa roca e que num momento em que assumem posições de gestão, posições de mando, na visão de alguns, se transformam, eu tenho dito, não se transformam, se revelam, por que nós somos profundamente autoritários, nós somos formados por uma cultura autoritária.
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