Eixo 2

Conferência do Sr. Gastão Wagner de Sousa Campos: (continuação)


Temos que mudar essa palavra ‘militância’, porque ela se refere a militar, obedecer, mas enfim, temos conseguido combinar a militância com o nosso trabalho, o que é um privilégio muito grande, porque isso cria sentido para o nosso trabalho. Isso é uma saída.

Nós não vamos reorganizar o trabalho e a saúde no sentido necessário para prevenir, promover, curar, reabilitar se a paixão que os militantes em geral têm pela mudança, pelo bem estar social, pela humanidade, por valores, não estiver presente, não estiver misturada.

Então, um aspecto novo dessa militância que estamos reinventando, diferente da militância tradicional, é que nós não militamos em nome do SUS, mas militamos em defesa da vida, das pessoas, nós pertencemos a vários partidos, a nenhum partido, a várias igrejas, a nenhuma igreja.

Outra diferença da nossa militância é que o militante em geral tem o discurso, tem a postura, tem a síndrome do positivista, o militante é cheio de razão.

Sou militante ecologista, sou cheio de razão ecológica, o mundo inteiro está errado. Sou cheio de razão sanitária, sou cheio de razão antifumo, antitabaco. Sou cheio de razão política a favor disso e daquilo e vou civilizar os bárbaros, vou conscientizar. A nossa militância é mais prudente.

Somos mais precavidos. Somos mais humildes. De tanto criticar esse tipo de militância arrogante, autoritária, dona da verdade, pastoral, que no fundo despreza a potência, o conhecimento da vida dos outros, da realidade dos outros, dos valores dos outros, às vezes, a gente cai no extremo oposto que é pensar que não temos nada a fazer.

São os novos Sócrates: “Só eu sei que nada sei. Só os outros que sabem.” Então, a gente acaba não tendo oferta, não tendo apoio, não tendo papel, como se cada comunidade, como se cada equipe de saúde se bastasse, como se ninguém precisasse da história, como se ninguém precisasse da experiência, como se ninguém precisasse de Freud, de Marx, de Deleuze, de Lacan, de Eduardo Passos etc.

Nós precisamos dessas coisas, nenhum de nós é completo, nenhum de nós é integral.

Estamos reconstruindo uma militância que pensa o apoio, que pensa a solidariedade.

O grande segredo da possibilidade do Humaniza SUS, e fora do Humaniza SUS, educação e saúde, popular e saúde, o trabalho da atenção primária de promoção à saúde, o nosso grande segredo é conseguirmos, ao trabalhar, trazer uma contribuição para a humanidade, garantir o nosso salário, mas também criar sentido e significado para a nossa própria vida.

Quem trabalha de uma forma burocrática, alienada, tende a sofrer muito.

Temos que propor reformas, temos que propor uma reorganização do trabalho em saúde que coincida, que coproduza, que bata – bata no sentido de encontro – com o desejo, com a perspectiva da maioria dos trabalhadores que são diferentes da gente.

Boa parte de vocês diz que são do movimento da diferença, mas nós temos muita dificuldade com a diferença, o diferente é muito complicado.

Diferente de mim é o crente da igreja pastoral.

Diferente de mim é o médico ortopedista formado numa perspectiva positivista que trabalha como ortopedista há não sei quanto tempo, porque sou clínico, não sou ortopedista.

Enfim, temos que reinventar uma nova forma de militância. Essa militância está ligada ao trabalho. E estamos fazendo isso. Acho que o caminho é por aí, uma militância crítica.

Eu penso que a reconstrução, que a reforma, que a reorganização do trabalho em saúde tem a ver - ainda que seja um tema específico e focal o trabalho em saúde - com a construção da sociabilidade, da vida em sociedade, que alguns atualmente chamam de vida em rede no terceiro milênio.

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